Grandes Nomes da Coloproctologia

Sir Alan Parks: O Cirurgião Colorretal Inovador (1920 – 1982)

Por: Leonardo A. Bustamante-Lopez e Fábio Guilherme Campos

Departamento de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo






Kt 1977; PRCS 1980-82; MRCS and FRCS 1949; BA Oxford 1943; BM, BCh 1947; MCh 1954; MD Johns Hopkins 1947; MRCP 1948; FRCP 1976; Hon FRCS Ed 1981; Hon FRCPS Glas 1981; FRCP Ed 1981; FRACS 1981; Hon

Nascido em 19 de dezembro de 1920
Morreu: 3 de novembro de 1982. Londres, Reino Unido
Ocupação: cirurgião colorretal

Infância

Sir Alan Parks nasceu no dia 19 de dezembro de 1920, na Inglaterra. Após a educação no Sutton High School e Epsom College, ele passou a Brasenose, Oxford, em 1939, formando-se em 1943.
Parks era filho único, e acreditava que isso dificultou seu ajuste social. Ainda em idade precoce, desenvolveu um amplo interesse por artesanato e passatempos, e sua atração posterior pela cirurgia foi em grande parte atribuída a isso.

Estudos

Em 1939, matriculou-se no Brasenose College, na Oxford, vindo a se distinguir por se tornar presidente do Oxford Athletic Club e jogar rugby para a universidade. Ficou conhecido por ser um líder e bom atleta. Formou-se em 1943, ano em que recebeu a Bolsa Rockefeller para participar da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland. Lá fez estágio médico de 1945 a 1946, recebendo o grau de Doutor em 1947. Permaneceu na Johns Hopkins Medical School até 1949.
Em seguida retornou ao Guys Hospital em Londres, onde completou os graus BM e BCh no mesmo ano e passou no exame para obter FRCS (Fellow do Royal College of Surgeons). De 1950 a 1952, como capitão do Corpo Médico do Exército Real teve a oportunidade de servir como cirurgião na Malásia, Japão e Coréia. Em 1954 obteve seu MCh no Guy’s Hospital.

Trabalhos

Logo no início de sua carreira fez a opção por qual campo da cirurgia iria trilhar. Como clínico, sua mente inovadora não estava vinculada às restrições da ortodoxia e abordou cada problema com os princípios básicos da anatomia e fisiologia. Os pacientes reconheceram sua preocupação consciente por seu bem-estar, e ele desfrutou justamente de sua completa confiança e carinho.
No Guy's Hospital, seu estudo de "disseções" do canal anal aprimorou os conhecimentos anatômicos, levando a estudos e publicações sobre fístulas e hemorroidectomia submucosa.

Sua primeira publicação apareceu em 1954 com o estudo anatômico do canal anal nos Procedimentos da Royal Society of Medicine. Seguiu-se sua tese sobre o tratamento cirúrgico de hemorroidas para realizar Mestrado em Cirurgia na Universidade de Oxford em 1954. Essa tese descreveu um novo procedimento submucoso que seus alunos apelidaram de proctoplastia indolor de Parks.

Nessa fase, apesar de demonstrar interesse por outros temas, mantinha foco nos estudos do intestino distal. Seus trabalhos sobre hemorroidectomia submucosa (1959) foram seguidos por outros sobre fístula anal (1961), fisiologia do assoalho pélvico (1962), farmacocinética da musculatura da parede intestinal (1963), remoção per-anus de tumores retais (1970), técnicas da anastomose colo-anal (1976) e da operação da "bolsa pélvica" após a pan-proctocolectomia (1980): cada uma delas introduziu um novo campo ou prática cirúrgica que ainda hoje é estudada. Uma lista verdadeiramente surpreendente de trabalhos e inovações foi publicada na bibliografia em um suplemento comemorativo do Annals of the Royal College of Surgeons of England em 1983.

Ele se juntou ao Hospital St Mark's em 1959, sendo o único cirurgião a ser nomeado sem ter sido residente nessa instituição. Logo depois, seu interesse se direcionou na melhor compreensão da fisiologia anorretal em relação à continência. Isso levou cirurgiões estabelecidos de todo o mundo a irem ao Hospital de Londres para vê-lo operar.

Sir Alan Parks teve a oportunidade de reunir em torno dele especialistas em neurofisiologia e neurofarmacología, além de jovens cirurgiões que clamavam trabalhar com ele. Nessas colaborações, utilizaram-se fontes elétricas e de pressão para obter conhecimento dos reflexos que controlam o músculo liso do esfíncter anal interno e do músculo estriado do assoalho pélvico e esfíncter anal externo. As tiras de músculo humano obtidas em operações foram estudadas para investigar neurotransmissores e o efeito de drogas. Sua pesquisa clínica envolveu um estudo detalhado de pacientes que ele havia tratado pessoalmente, com particular referência ao resultado de vários procedimentos cirúrgicos.

O Prof. Parks propiciou que um grupo de coloproctologistas dedicados, de todas as partes do mundo, obtivessem uma melhor compreensão da função dos músculos do assoalho pélvico. Ele aperfeiçoou a técnica de anastomose colo-anal e anastomose ileoanal com um reservatório (bolsa de Parks), uma técnica dependente de seu trabalho na dissecção da submucosa e na compreensão da fisiologia pélvica. Nesses dois procedimentos, sua técnica como cirurgião/mestre foi bem exemplificada, fazendo do centro cirúrgico o melhor cenário para que ele pudesse ensinar.

Além de seus exigentes compromissos clínicos, Parks assumiu uma carga pesada em prol da profissão, e pouco depois de eleito para o Conselho em 1971, tornou-se secretário honorário do Joint Consultants Committee da Inglaterra, sendo eleito presidente no ano seguinte por seu talento como administrador. Este comitê representa a profissão médica em discussões com o governo da Inglaterra. Sua integridade o tornaram um presidente popular e bem-sucedido, com uma ótima relação com o primeiro ministro e os Reis.

Dedicou muito tempo, energia e despesas pessoais neste trabalho. E, em reconhecimento de seus excelentes serviços no comitê e suas enormes contribuições para a cirurgia e coloproctologia, foi nomeado como Cavaleiro pela Rainha Elizabeth II em 1977 numa cerimônia privada no Castelo em Londres, título que lhe outorgava ser chamado de Sir Alan Guyatt Parks.

Sua compreensão da anatomia e fisiologia do assoalho pélvico, combinada com sua delicada técnica de dissecção operatória, levaram ao reconhecimento de seu trabalho como pioneiro cirúrgico da mais alta qualidade científica. Como resultado, sua opinião clínica e conhecimentos práticos foram bastante demandados, e no final de sua vida permaneceu como um clínico dedicado e bastante ocupado.

Prêmios e honrarias

Sir Alan Parks recebeu muitas honras, incluindo bolsas de estudo de universidades americanas, australianas e canadenses e dos colégios de cirurgiões de Edimburgo e Glasgow. Ficou particularmente orgulhoso do prêmio que recebeu em 1980, o prestigiado Prêmio Ernst Jung em Medicina como reconhecimento de suas contribuições cirúrgicas para cirurgia e fisiologia colorrectais. Em 1971, foi convidado a se candidatar ao Conselho do Colégio de Cirurgiões.

Não foi surpresa quando foi eleito presidente do Royal College of Surgeons em 1980. Sua maneira genial, sua liderança sábia e firme, aliadas ao encanto de sua esposa, contribuíram muito para o Colégio durante seu período de mandato.
Além disso, foi cirurgião consultor do Exército e Presidente da Seção de Proctologia da Royal Society of Medicine, examinador da Universidade de Cambridge e assessor médico-chefe do BUPA.

Em 1981, a Universidade de Genebra concedeu-lhe o Prêmio Nessim Habif. Era Membro Correspondente da Sociedade Cirúrgica Alemã e Membro Honorário da Sociedade Americana de Cirurgiões Colorretais. Apenas alguns dias antes do início de sua doença fatal, foi admitido como Membro Honorário da Sociedade Cirúrgica Italiana.

Sua maior contribuição sempre será a aplicação de reservatórios ileais com anastomose ileoanal para o manejo cirúrgico da colite ulcerativa e polipose familiar. Seu clássico artigo sobre esta técnica foi intitulado "Proctocolectomia sem ileostomia para colite ulcerativa" e foi escrito junto com o Dr. R.J. Nicholls.

Vida pessoal e personalidade

Em 1956, Sir Alan Parks foi abençoado pelo casamento com Caroline Jean, também formada em medicina, com quem teve três filhos e uma filha. Sua vida familiar era extremamente feliz, e ele adorava se juntar a sua esposa e filhos, principalmente quando ficava com eles à beira-mar em Dunwich, Suffolk, admirando as aves do local.

Dotado de forte fé cristã desenvolvida na escola, permaneceu uma força importante e apoiou o Christian Medical Fellowship. Foi membro constante de sua igreja local e cirurgião honorário do Hospital St. Luke para o Clero. Possuía uma fé profunda, que permeava todas as suas atividades. De alta estatura e ombros largos, Alan Parks era uma figura com autoridade que não hesitava em falar o que pensava, embora fosse acessível e extremamente leal a seus amigos e estudantes. Sempre faria o que ele concebeu para ser seu dever, mesmo quando esgotado.

Em outubro de 1982, Parks sofreu um infarto do miocárdio quando estava em Roma. Em seguida, mudou-se para Londres e morreu 2 semanas depois, no dia 3 de novembro após cirurgia cardíaca de emergência realizada no Hospital St. Bartholomew, aos 61 anos. O aviso de sua morte o descreveu como "Cirurgião Mestre", e essa foi a descrição que o descreveu da maneira mais justa.

Quem o conheceu afirma que Alan Parks será sempre lembrado como um artesão cirúrgico, um cientista clínico, um estadista médico e como um homem de grande integridade e caráter. E seu nome ficou definitivamente associado a importantes inovações no campo da cirurgia colorretal.

Fontes de Pesquisa

1. Brit. med. J., 1982, 285, 1434; Lancet, 1982, 2, 1111; The Times 5 November 1982.
2. Ann. Roy. Coll. Surg. Engl. Special supplement 1983.]. JE Lennard-Jones
3. Biography--Obituary. Br Med J 1982;285:1434. Obituary. Lancet 1982;2:1111. Proceedings of the Memorial Symposium, Sir Alan Parks. Annals Royal College of Surgeons, England, November 9, 1983.



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